Romeiros da CEBS nas Terras do Padre Cícero
Viajei como romeiro com os grupos das Cebs de Ipatinga e região para o Juazeiro do Norte por ocasião do 13º Intereclesial. Viagem fisicamente cansativa, hospedagem sem conforto, calor escaldante do nordeste; mas nada subtraiu a beleza e a riqueza desta romaria. Não éramos delegados e por isso não participamos dos momentos oficiais do evento. Uma programação extraoficial foi montada e romeiros de vários pontos do Brasil participaram. Temas como religiosidade popular em Juazeiro, Padres Cícero e Ibiapina, os beatos, romeiros, situação política e eclesiástica da cidade foram debatidos. A figura de Pe. Cícero sobressai como o grande patriarca do Juazeiro. O “Padim Pe. Ciço” como é chamado, ultrapassa a figura do religioso: ele foi e ainda é o padrinho que ajuda, aconselha e aponta um horizonte de esperança para o sertanejo sofredor. Ele não é o padrinho que se apropria do afilhado para explora-lo em suas terras como o fazia os coronéis da região. Ele é o padrinho que defende e promove seus afilhados. Outra figura de destaque é Pe. Ibiapina que abriu mão de uma possível carreira eclesiástica, enveredando pelo sertão adentro como missionário. Como não era religioso, Ibiapina criou um método missionário original: não estava ligado a normas de Ordens e Congregações e por isso além de pregar como outros missionários transformou sua vida missionária num concreto auxílio aos sertanejos sofredores: fundou várias Casas de Caridade, Fez Açudes e Cemitérios, construiu Capelas e Hospitais num movimento concreto de amor ao próximo. Enquanto outros missionários queriam que as almas fossem para o céu após a morte, Ibiapina entendeu que antes era preciso que o corpo não fosse entregue ao verdadeiro inferno do sofrimento aqui em vida. Outra experiência marcante foi a visita ao Caldeirão. Localizado no município de Crato, traz esse nome pelas grandes pedras onde era represada a água para o abastecimento da comunidade que ali foi formada. Beato José Lourenço liderou um movimento pautado na oração e no trabalho. A comunidade formada por sertanejos que fugiam da seca e romeiros, chegou a ter mais de cinco mil habitantes. Todos trabalhavam, todos tinham o suficiente para viver, ninguém era dono de nada. A Irmandade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto teve um grande número de membros. Temendo uma nova Canudos, autoridades começaram as investidas para destruir Caldeirão. Após investigações e tentativas de dispersão da comunidade, esta foi dizimada por bombardeios aéreos do exército brasileiro e ataques da polícia militar cearense. Do que antes foi uma experiência fértil hoje restou a história, uma Capela, uma casa e alguns alicerces perdidos no meio do mato. Lá se percebe o quanto um povo organizado ameaça as instituições
Pe. Cícero morreu sem o uso de ordens e o povo de Juazeiro ficou por muito tempo mal visto pelas autoridades eclesiásticas. Para que se possa iniciar um processo para uma possível beatificação e canonização de Pe. Cícero é necessário rever o processo no qual ele foi condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Em 2006 o atual bispo de Crato, Dom Fernando Panico pediu a revisão da condenação de Pe. Cícero e sua possível reabilitação; sem respostas até a ocasião do 13º Intereclesial. Apesar disso, Cícero Romão Batista continua a ser o Místico que desperta a fé no coração do povo nordestino e o padrinho que consola e auxilia. Sua vida e seu testemunho foram mais fortes que as decisões institucionais e fazem dele o grande patriarca de Juazeiro do Norte.
Por: Pe. Hélio Cristino Teixeira