Considerações de Pe. Cláudio sobre o Intereclesial de Juazeiro
Justiça e profecia a serviço da vida – Considerações a partir do Intereclesial de Juazeiro
Introdução
Na segunda semana deste ano de 2014, aconteceu em Juazeiro do Norte (Ceará) e cidades vizinhas o 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base. Maria do Carmo (ministra da Palavra em São Gonçalo do Pará) e eu participamos como delegados da diocese de Divinópolis. Viajamos no ônibus especial, com pessoas de várias dioceses mineiras que saiu de Belo Horizonte, por volta da meia-noite, de 5 para 6 de janeiro (domingo para segunda), seguimos para o leste do estado, passamos por João Monlevade, atravessamos Ipatinga, alcançamos Governador Valadares e, por ali, entramos na extensa BR-116, na qual acabamos de passar o norte de Minas, atravessamos os estados de Bahia e Pernambuco e chegamos ao Ceará.
Em se tratando de tempo e de paisagens, passamos a manhã de segunda-feira avistando paredões de pedra no Vale do Mucuri, região cuja cidade mais famosa é Teófilo Otoni. Depois, por volta de meio-dia e meia, uma placa de boas-vindas nos apresentava o “Estado da Bahia”. Horas adiante, paramos para almoçar numa paróquia de Vitória da Conquista, ainda no sul baiano. Prosseguindo viagem, a enorme reta que é a BR-116 nos fez atravessar povoados bucólicos e outros maiores, com igrejas e casas geralmente pequenas e simples e uma paisagem reta, de planície, diferente do relevo montanhoso em que nos movemos cotidianamente, no centro e no oeste mineiros.
Montanhas também as havia, e muitas, e bonitas, até que, em outra madrugada, recebeu-nos para banho e jantar um seminário da Companhia de Jesus (os jesuítas), em Feira de Santana. Mais outras horas e, no fim da madrugada, paramos em Milagres, no norte baiano, até que outro dia amanheceu e, às oito e meia, atravessamos uma ponte do Rio São Francisco e alcançamos Pernambuco. Nesse estado, paramos só uma vez: em Salgueiro. Depois pararíamos ainda outra vez nessa viagem, precisamente em Penaforte, já no Ceará, recebidos ali para almoço em casas de família da paróquia Nossa Senhora da Saúde. Estávamos já na diocese de Crato, à qual pertencem Juazeiro e as outras sedes do 13º. Intereclesial.
Levados fomos à cidade de Barbalha, definida como aquela que hospedaria os delegados do Lestão, conjunto dos Regionais Leste I (Rio de Janeiro) e Leste II (Espírito Santo e Minas Gerais) do Brasil, segundo a divisão pastoral da CNBB. À noite, enfim, estávamos em Juazeiro do Norte para as atividades.
No presente trabalho, depois de tê-lo introduzido falando um pouco da viagem de ida, quero agora abordar dois aspectos entre aqueles (inúmeros) que considerei marcantes nesses dias por lá. Passemos a eles.
1. O regime de mercado: “Não dá mais para continuar”
Desde o encontro do Lestão (Juiz de Fora, 4 a 6 de outubro de 2013), e mais até que em Juazeiro, conversávamos que não dá mais para viver no regime de mercado.
Regime de mercado é um modo de vida em que o valor fundamental é o dinheiro. O dinheiro é o deus desse Reino. Pessoas, relações, atividades, lazeres, estudos, compromissos firmados, profissões e a própria vida religiosa valem ou não valem na medida em que trazem ou não o dinheiro. Como uma senhora de Belo Horizonte disse, de modo ilustrativo, “em nossa cidade, praticamente só se sai de casa para duas coisas: ganhar dinheiro ou gastar dinheiro”.
No regime de mercado, ficamos na ilusão de que um dia, generosamente, os que se consideram donos do mundo nos autorizarão a viver bem e a ter tempo para nós e as coisas boas da vida. Ou, inversamente, firmamo-nos na ilusão de que, mesmo não tempo tempo (é a reclamação cotidiana: “não tenho tempo”, “não temos tempo”) e mesmo espremidos até não ter mais jeito, “isso é que é vida, prazer, alegria e sucesso”, como se diz.
“O dinheiro tem que girar”, canta essa religião. Sim, o regime de mercado é como uma religião, pois marca em profundidade a vida. Trata-se de uma religião cujos ministros mais famosos esbanjam seu fanatismo e os fiéis em geral também não querem outra coisa senão ser bons fiéis – e cada vez melhores, em contato sempre mais íntimo com seu “deus”.
Nessa religião, temos a missão (missão: outra palavra religiosa!) diária de “ganhar ou gastar dinheiro”, como dizia a mulher. E, quando não for possível praticar essa “virtude”, no exame de consciência à noite será inevitável refletirmos sobre o que e quem nos atrapalhou em nossa busca: quais foram as pessoas que nos interromperam na rua; quais são aquelas outras das quais não precisamos mais e, por isso, devemos descartar (“espantar esses males, essa coisa ruim”, como se diz); de que modo poderíamos ter sido mais falsos e, assim, enganado mais; de que forma poderíamos ter parecido bons, mesmo não sendo; enfim, em que caminho de “conversão” devemos de agora em diante nos empenhar para viver para ter mais “vida”, e “vida em abundância” – ou seja: mais dinheiro e mais poder sobre os outros.
Quanto mais a mística dessa religião se aprofunda na consciência, mais espremidos e esgotados ficamos. Se anteontem trabalhávamos o tempo necessário para viver bem, ontem começaram a nos apertar. Depois até nos ajeitamos no novo lugar, embora mais espremidos. Mas deu para nos ajeitarmos. Em seguida, porém, apertaram-nos mais um pouco, até que, com pequenas e periódicas doses de pressão, fomos nos ajeitando outras vezes, na expectativa de que um dia, sim, “deus” nos traria o bem-estar e a paz. Até que chegamos aos dias de hoje, quando, sacrificados quase totalmente no altar no dinheiro, num calvário que dura o dia inteiro e o ano inteiro, percebemos que, como também disse alguém, “não dá mais para continuar; temos que mudar de religião”.
Ao mesmo tempo em que percebemos isso, não basta ver, pesquisar e analisar. Também não é suficiente, em seguida, julgar. É fundamental agir. Então, vendo essa realidade e julgando-a, por matar-nos um pouco mais a cada dia e cada ano, evangélica, não se pode deixar de agir.
Um dos passos já ao nosso alcance (portanto, a curto prazo) é nos empenharmos pela vida em comunidade e por estar com os outros. Por mais que isso inicialmente nos dê preguiça e seja difícil! De fato, até há alguns anos nas metrópoles, mas agora também nas cidades médias e pouco a pouco nas pequenas, quase ninguém conhece quase ninguém. A poucos podemos chamar pelo nome. Do mesmo modo, pouquíssimos se interessam por saber nosso nome, aspecto mais elementar na convivência humana. De fato, com quase ninguém nos abrimos. E praticamente ninguém se abre conosco. Desse modo, exatamente por sermos desconhecidos e por não nos olharmos nos olhos, não nos sentimos vinculados entre nós. O senso de “nós”, de pertencermos a uma comunidade que nos ama e à qual amamos, ou não existe, ou se trata de pequenos grupos de interesse, onde gostamos de estar para nos escondermos de todo mundo, do “mundo cruel”, como dizem os ministros do dinheiro em seus jornais “missionários”. Nisso, “só nos resta”, cremos, “salvar a própria pele” e “salve-se quem puder!” Ou, como cantam duas músicas famosas dos últimos anos: “Não estou nem aí”, “e que se dane o mundo”.
Outra coisa em que também dá para avançarmos já agora é: em nossas casas, empresas e em todo canto, nos reunirmos e decidirmos coletivamente por novo modo de viver. É decidirmos, empregados e patrões, sócios e clientes, que, de agora em diante, trabalharemos menos; produziremos menos, ficaremos menos horas diante da máquina ou correndo pela rua; de agora em diante, por mais que outros, lá fora e lá longe, nos gritem “mais produtos”, “mais serviços” e “mais circulação de dinheiro”, decidimos romper com esse esquema.
É, em resumo, dizermos em comunhão: “Estamos mudando de religião. Seus missionários anunciam e não cumprem; sempre tentam nos fazer crer que é da ‘próxima vez’ e nunca é. O pastor desta religião nos xingou, humilhou e, como se não bastasse, inúmeras vezes ainda insistimos em acreditar nele, pensando que seria bom nos convertermos. Mas agora, lucidamente, percebemos que não foi. Ademais, os santos dessa religião não intercedem por nós. Ou, se intercedem, é apenas em benefício de um ou dois, de dez ou vinte, enquanto desintercedem pelos outros milhões. E isso não queremos.”
Outro passo, enfim, possível a curto prazo (bastante ligado ao anterior) consiste em ser firme, agora no nível individual, em comprar menos e assistir menos à propaganda “missionária” dessa religião (sobretudo aquela da mídia em imagens, com suas mensagens subliminares ); numa palavra, em ser um fiel mais relaxado na participação semanal da “missa solene” que se celebra o dia inteiro nas “catedrais do consumo”, os shoppings.
Pequenos passos como esses, tomados e testemunhados entre nós, já nos darão lucidez para percebermos outros, e depois outros, com outros ainda, unindo ações e ideias, aqui e ali, até nos esquecermos de como se canta o salmo mais conhecido dessa religião:
“O Dinheiro é o pastor que me conduz;
não me falta coisa alguma.
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,
nenhum mal eu temerei.
Estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança.”
E também este:
“Dinheiro, eu ponho em vós minha esperança;
que eu não seja envergonhado eternamente.
Porque sois injusto, defendei-me e libertai-me.
Inclinai o vosso ouvido para mim;
apressai-vos, ó Dinheiro, em socorrer-me.
Sede uma rocha protetora para mim,
um abrigo bem seguro que me salve.
Sim, sois vós a minha rocha e fortaleza;
por vossa honra orientai-me e conduzi-me,
(…) porque sois o meu refúgio protetor.
E, finalmente, este outro:
“O dinheiro é minha luz e salvação;
de quem eu terei medo?
O dinheiro é a proteção da minha vida;
perante quem eu tremerei?
Ao Senhor [senhor Dinheiro] eu peço apenas uma coisa
e é só isto que eu desejo:
habitar no santuário do Dinheiro
por toda a minha vida,
saborear a suavidade do Dinheiro
e contemplá-lo no seu templo.
(…) Espera no Dinheiro e tem coragem!
Espera no Dinheiro!”
2. O empenho pessoal e comunitário na atual reforma da Igreja
Inevitavelmente, a renúncia de Bento XVI e, mais ainda, a eleição de Francisco foram marcas fortes do Intereclesial de Juazeiro. No grupo temático do qual participei, sobre as CEB’s e o protagonismo da juventude, fomos desafiados a criar problema, no bom sentido da expressão, na vida pastoral. Chamaram-nos a atenção para o necessário agito a ser feito nas comunidades, para que se empenhem numa reforma da Igreja ao estilo de Jesus, caso ainda não estejam assumindo seu protagonismo.
Com efeito, é mais ou menos visível que a maioria de nós fica à espera do que o papa vai dizer, do que vai autorizar, do que gosta ou não gosta. Com isso, não se arrisca em nada; esconde-se, quando poderia manifestar o próprio rosto. Tal caminho é a negação do protagonismo, palavra tão pronunciada ultimamente. Daí, ficamos reféns de algo que, se por um lado gostaríamos que fosse reformado, por outro não se reforma sem nossa palavra e nossos atos firmes e claros.
Dizendo-o de outro modo, os jovens do 13º Intereclesial desafiaram-nos a colocar as ideias e as coisas na mesa, à vista de todos. Disseram-se incomodados com o que consideram nosso jeito morno e fingido de reagir quando estamos em grupo pastoral. Disseram também que não levamos sua palavra e suas iniciativas a sério. Denunciaram-nos por compromissos firmados que quase sempre “não são para valer”. E se expressaram decididos a continuar abandonando a comunidade de fé se não perceberem sinais de que estamos comprometidos com eles. “Sabemos muito bem que, para os de mais idade, não fazemos diferença, a não ser como tarefeiros e carregadores de banco. Sem nós, a comunidade teria a mesma aparência. Sentimos os mais velhos convencidos de que, para as questões mais sérias da vida da comunidade, não faz diferença a nossa opinião.”
Nessa questão do protagonismo, também foi dito com insistência que, se por um lado o estilo pessoal de Francisco nos favorece falar, por outro lado é necessário falarmos agora. Uma vez que portas se abriram, já tem sido omissão nossa continuar à espera de que se abram mais e se abram outras, quando está ao nosso alcance (pelo menos ainda) mantê-las abertas, bem como abrir outras, antes que os adversários de qualquer transformação na Igreja percebam nosso medo e as fechem. Nesse sentido, em Juazeiro, alguém citou um poema de cujas palavras exatas não me recordo, mas que soam mais ou menos assim:
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim
e não dizemos nada.
Na segunda noite já não se escondem;
pisam as flores, matam nosso cão
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
Já não podemos dizer nada.”
Tal poema remeteu-me imediatamente a palavras que ouvi em certa semana formativa em nossa diocese de Divinópolis, precisamente em novembro de 2011, ditas por uma religiosa paulina, que veio tratar com os padres e o bispo diocesano sobre a comunicação na vida da Igreja. Citando-a, termino este texto. Disse ela: “de tanta prudência se perde a vez”.