Vila Vicentina Frederico Ozanam, em Divinópolis, acolhe 53 idosos
Os idosos são hoje 14,5 milhões de pessoas, 8,6% da população total do País, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O instituto considera idosas as pessoas com 60 anos ou mais, mesmo limite de idade considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para os países em desenvolvimento. Em uma década, o número de idosos no Brasil cresceu 17%, em 1991, ele correspondia a 7,3% da população.
O idoso dependente e o idoso fragilizado constituem, no Brasil, o grupo mais marginalizado e excluído dentro do universo das pessoas da terceira idade. São especialmente esses que buscam refúgio em vários asilos mantidos pela Igreja Católica.
A maioria das pessoas idosas que são portadoras de deficiências, preferem permanecer em suas casas, cuidados por familiares, cuidadores informais ou formais dos serviços de saúde e assistência social. Porém essa não é a realidade para todos. Muitos são abandonados pelas famílias, já que representam um alto custo financeiro ou ainda perdem o vínculo familiar por não conhecer ou por não ter parentes por perto.
A Vila
Antes de se tornar um asilo de fato, as casinhas que hoje servem de abrigo aos idosos formavam uma pequena vila da Sociedade São Vicente de Paulo. Para lá iam idosos fragilizados, sem boas condições financeiras e mães solteiras, que em meados do século passado, sofriam bastante preconceito.
Em agosto de 1975, a vila foi transformada em um asilo. Foi construído um portão de entrada e o funcionamento passou a ser sistemático. Atualmente são 53 internos, sendo 28 homens e 25 mulheres, todos com 60 anos ou mais.
Para fazer parte da família da Vila Vicentina um grupo de assistentes sociais, cedidas pelo Cras – Centro de Referência da Assistência Social, faz uma sindicância para averiguar as reais necessidades. A casa só recolhe idosos com necessidades especiais e de baixa renda. A maioria dos casos, cerca de 90%, foram abandonados pela família ou perderam o vínculo familiar, são poucos os casos de idosos que procuram o asilo por motivo de agressão familiar, embora essa situação seja uma realidade.
A casa está aberta para dar asilo a pessoas de todas as regiões do Brasil, embora concentre idosos de Divinópolis e região. Já passaram também pela Vila Vicentina um senhor português e outro uruguaio. “Não tem restrição de localidade, já recebemos pessoas de outros países e atualmente temos pessoas de vários lugares de Minas Gerais”, explicou Pablo Henrique, administrador do asilo.
Não existe uma rotina na Vila Vicentina. Os idosos que possuem boa saúde mental podem ir às ruas fazer compras, visitar amigos e ter uma vida normal, desde que retornem a casa até as 19 horas.
As visitas acontecem todos os dias, inclusive aos domingos e feriados, entre as 14 e 16 horas. Quando o familiar fica mais de três meses sem visitar o idoso, ele recebe um contato da administração do asilo para reforçar a necessidade da visita.
O administrador Pablo Henrique ressalta que a maior carência do asilo hoje é a afetiva. “Somos uma instituição filantrópica e dependemos sim de doações de dinheiro, materiais de limpeza e higiene, mas nossa saúde financeira vai bem. A maior demanda que temos hoje é de visitas. Se for perguntar qual a maior doação que precisamos eu diria que é visita. O idoso é muito carente e precisa de alguém para lhe ouvir, conhecer seus causos e ter um pouco de atenção. Embora nós, funcionários, também temos essa aproximação afetiva, não é possível atender todos os 58 idosos como eles precisam. Por isso, pedimos que a sociedade faça mais visitas”, convidou o administrador.
A casa conta com uma equipe de 18 profissionais, entre enfermeiro, técnico em enfermagem, cuidadores de idosos, cozinheiras, fisioterapeuta e nutricionista. Há também uma agenda mensal de atividades: toda quarta-feira acontece uma tarde de diversão, em que voluntários promovem a distração através da música, brincadeiras e lanche; na última quinta-feira de cada mês é comemorado os aniversários com bolo, balões e muita festa; na penúltima quarta-feira acontece o passeio em que os idosos saem em um ônibus disponibilizado por uma empresa divinopolitana para irem a sítios, ao Parque da Ilha, por exemplo; e toda quinta-feira, às 19 horas acontece missa na capela interna.
Um bazar da pechincha funciona, todos os dias, dentro do próprio asilo. “É uma fonte de renda importante do nosso asilo. Quem deseja ajudar a adquirir calçados, roupas, enfeites de casa, bijuterias, pode chamar aqui na portaria que estaremos sempre disponíveis. É uma forma interessante de nos ajudar”, contou Pablo.
Quem deseja contribuir com a Vila Vicentina Frederico Ozanam, seja através de doações materiais ou em dinheiro ou ainda com visitas, deve ligar no telefone 3221-7063. O endereço é Rua Nova Serrana, 140, bairro Afonso Pena.
História de vida e poesia
Dentro da vila existem particularidades e descobertas incríveis. Senhor Sirlê Bento, por exemplo, é um interno de 78 anos que guarda em sua mente, tomada pela esquizofrenia, belas poesias e um português de primeira classe.
Nascido em São João Del Rey, ficou órfão aos três anos de idade, quando foi “dado para os outros”, como ele mesmo disse. De lá pra cá rodou várias cidades em Minas Gerais, até vir trabalhar em Divinópolis. “Não tive família, nunca tive. Não sei o que é ter filhos. Moro aqui faz 9 anos (mas eu gosto de falar que tem 11, sabe? Eu sempre gosto de aumentar as coisas). Trabalhava numa fábrica de alumínio aqui em Divinópolis, fazia panelas. Quando sai de lá eu não tinha para onde ir, nem dinheiro. Então eu vim sozinho para cá e moro aqui. Não gosto muito, sabe? Mas é o lugar que tenho”, contou senhor Sirlê.
Amante da leitura, Sirlê sempre carrega consigo uma sacola cheia de cadernos, canetas e chumaços de papéis. Mostra com cuidado cada poesia e explica o motivo de sua criação.
“Essa aqui é meu quarto, eu mesmo que arrumo ele. Tem televisão, minha cama e um rádio de cd, ta vendo? Fico aqui escrevendo minhas poesias, mas eu só escrevo a noite. E também gosto de ler, sempre quando tem uma boa revista eu leio. Gosto de Rui Barbosa e também de Machado de Assis”, contou.
Com dificuldade de nos encarar nos olhos e com certa amargura que a vida lhe reservou, seu Sirlê é uma pessoa simpática que merece a atenção de quem visita o asilo.